Entregar-me a paz eterna, livrar de meus conflitos internos e de toda aquela sujeira que a sociedade impõem. Sem medo, sem dor, fim das lágrimas. Olhei pela última vez o pôr-do-sol. Ah disso sim sentirei falta! Subi no parapeito, fechei os olhos. Desculpa mãe. Quando ouvi passos tímidos se aproximarem, fui nocauteado por um aroma doce. Engraçado, fazia-me lembrar da primavera. Tão doce!
-Eu sei porque você veio... Não adianta tentar me convencer com qualquer filosofia barata!
-Eu não vou...- Uma moça pequena se aproximava de mim.
-Não vai?
-Não.- Suspirou.
-Vai ficar aí me vendo pular?
-De camarote. Eu gosto de espetáculos. - A tranqüilidade em sua voz fazia-me estremecer. Mas quem era essa guria?
Silêncio.
-Posso ler? - Disse ela olhando para os papéis espalhados ao chão.
-Já que é minha unica platéia... Nada mais justo saber do enredo.
-Caramba! Isso era pra ser uma carta de suicídio? Esta mais para um livro!
- É o ápice da minha história, precisei ser detalhista...- Equilibrando-me sobre o parapeito como se fosse eu fosse um artista de circo.- Quem é você guria? Como entrou aqui?
-Ninguém...
-Isso é para ser trágico! O público não pode interagir com o protagonista.
-Eu sou a platéia traço coadjuvante. Mil e uma utilidades, ao seu dispor!- Reverenciou-me. Era tão divertida que faria qualquer um perder a linha do raciocínio, ou melhor, insanidade.
-Vá! Que eu tenho um encontro...
-Um encontro? - Seu rosto contorceu-se em curiosidade.
-Com a morte... Vá embora que já estou atrasado a 26 anos...
Silêncio. Ficamos nos observando. Eu em seus olhos e elas em meus olhos suicidas.
- Chamo-me Felipa.- Estendeu a mão para me cumprimentar
-Felipa...- Murmurei para mim mesmo- Nunca tinha ouvido esse nome...
-Isso é bom. Significa que sou unica! Não acha?- Olhou-me com aqueles imensos olhos castanhos, quase a devorar-me.
(Continua...)
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